O que a garrafa não mostra
O episódio 4 do Envase em Foco, publicado no YouTube em 2 de setembro de 2026, recebeu Luciano Rizzetto, apresentado como executivo com mais de duas décadas de atuação em bebidas e na transformação de politereftalato de etileno (PET), com passagens por Pepsi, Braspet, Lorenpet e Águas Prata. Ao lado do apresentador José Miguel Vilela, ele percorreu o caminho da garrafa, da resina à casa do consumidor.
Para quem envasa, o interesse está nas etapas invisíveis ao consumidor, nas quais, segundo Luciano, a água pode ser comprometida. O podcast é produzido pela CAVE Consultoria, que também edita o CAVE News, e o episódio teve patrocínio da Aguazul.

Referências desta seção: [1] Envase em Foco (YouTube)
Resina e pré-forma: o gosto pode nascer antes do sopro
Segundo Luciano, para a água mineral normalmente se usa resina de viscosidade 0,80; para os produtos carbonatados, que pedem pressão um pouco maior, ele citou pré-formas de 0,85. Antes da injeção, explicou, a resina precisa ser seca a cerca de 180 °C por algumas horas, até a umidade ficar abaixo de 20 partes por milhão (ppm). Pular etapas compromete a pré-forma e o sopro; numa garrafa com gás, uma cristalização no fundo pode fazê-la estourar ao bater no chão.
Ele mencionou ainda as resinas misturadas com PET reciclado, num percentual de 20% a 22% que, segundo ele, vem se tornando até uma exigência. O Decreto nº 12.688/2025, em vigor, fixa meta nacional de 22% de conteúdo reciclado nas embalagens plásticas em 2026, mas exclui dessas metas as embalagens com regulamentação específica, inclusive as de alimentos. A matéria “rPET na água envasada: o dossiê e as novas regras de logística reversa” trata do assunto em detalhe.
O gosto de plástico, na avaliação dele, pode vir da resina ou de uma injeção mal monitorada, e não necessariamente do sopro. Por isso, disse, quem compra pré-formas deve saber de quem é a resina, pedir laudo de migração e entender o processo do fornecedor.
Referências desta seção: [1] Envase em Foco (YouTube) [4] Presidência da República, Planalto
Ar comprimido: o risco aparece no dia úmido
O ar da sopradora chega a 30 bar, em geral com um booster alimentado por compressor de parafuso, contou Luciano. Se o compressor é lubrificado, um pouco de óleo pode ser arrastado pela tubulação.
A defesa, segundo ele, começa com um bom secador e segue com uma cadeia de filtros. A maioria das instalações tem dois: o de partículas e o separador de água com drenos automáticos. Ele recomenda acrescentar um de carvão ativado, contra odores, e um microbiológico, e repetir os filtros na saída do compressor e na chegada à sopradora. A exceção é o microbiológico, que deve ficar mais no fim da linha.
Para ele, o perigo está no dia úmido, quando o secador perde eficiência e os drenos param: a água arrasta um pouco de óleo para a linha. Ele também defende óleo de grau alimentício no compressor lubrificado. Secador e drenos entram na verificação de rotina, principalmente em dias úmidos; os quatro filtros são recomendação do convidado, sem norma citada no episódio.
A qualificação do lubrificante não permite presumir que o produto esteja seguro após uma falha de filtragem. A NSF distingue lubrificantes H1, destinados a situações de possível contato incidental sob condições normais de uso, de uma autorização para contato direto ou de uma garantia de segurança do alimento após o contato. A ocorrência precisa ser avaliada tecnicamente; a designação “grau alimentício” não substitui os controles do sistema.
Referências desta seção: [1] Envase em Foco (YouTube) [5] NSF / New Food, volume 16, issue 4, 2013
Tampa e shrink: corante, deslizante e aviso de mudança
Para Luciano, uma tampa que não vaza e retém o gás não está, só por isso, livre de problemas. Um corante de má procedência pode transmitir gosto à água, e a cor faz muita diferença. Ele contou o caso de uma indústria que produzia tampas maiores, e não as de garrafa PET de água, em que um corante azul fazia as peças empenarem, e outro não.
Entre os deslizantes, que permitem rosquear a tampa, ele citou a erucamida, comum nesse uso, e a oleamida, menos usada em tampas. A behenamida, segundo ele, é a mais apropriada para água mineral: pode ser mais difícil de aplicar, mas migra menos. Para homologar o fornecedor, ele indica pedir ficha técnica, laudo de migração da resina e do corante e o nome do deslizante. A conversa também tratou da troca de fornecedor de corante sem aviso: a cor pode ser igual, mas as propriedades nem sempre são.
O filme shrink, que forma os fardos, fica horas em contato com garrafa e tampa, e um filme de má qualidade, segundo ele, pode passar gosto à água pela permeabilidade do PET. A Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 173/2006, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em vigor, exige critérios documentados de seleção dos fornecedores de insumos, entre eles as embalagens, além de especificações e inspeção no recebimento. As perguntas de Luciano cabem nesses critérios.
Referências desta seção: [1] Envase em Foco (YouTube) [2] Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), AnvisaLegis
Uma embalagem que não é impermeável
Luciano lembrou que o PET não é 100% impermeável: com o tempo, a água com gás perde gás pela parede da garrafa. Perto de 70 °C, acrescentou, o material já amolece e começa a se deformar. Num caminhão parado no trânsito, sob sol de 40 °C, a temperatura debaixo da lona passa de 50 °C ou 60 °C, segundo a estimativa feita na conversa.
Ele prefere caminhão sider ou baú e, se houver lona, que seja de algodão, e não a plástica azul. No depósito, pediu local limpo, seco, arejado, fora da luz solar e longe de produtos químicos com cheiro. O apresentador José Miguel Vilela contou o caso de uma carga que, enviada ao litoral, recebeu reclamação de gosto de coisa podre: o lote era rastreado, mas o transporte não era controlado, e o caminhão baú tinha levado salsicha antes, sem limpeza. A carga inteira foi perdida.
A RDC 173/2006 pede depósito limpo, seco, ventilado, com temperatura adequada e protegido da luz solar direta, e veículo limpo, sem odores indesejáveis e sem cargas que comprometam a qualidade da água. Esses itens estão detalhados em “A qualidade também viaja: o que conferir no estoque e na entrega de água envasada”. Na casa do consumidor, Luciano desaconselhou guardar a água embaixo da pia ou no chão e disse que orientar o consumidor cabe a quem fabrica, pelo rótulo.
Referências desta seção: [1] Envase em Foco (YouTube) [2] Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), AnvisaLegis
O elo mais fraco e a norma em vigor
Para Luciano, o elo mais fraco da cadeia no Brasil é a negligência com processos e procedimentos, que acaba se refletindo no produto. Ele citou ainda a dificuldade de investimento das fontes familiares, de recursos escassos, e ressalvou que grandes empresas às vezes também não investem tanto.
Na mesma resposta, mencionou a Portaria 374, que, segundo ele, trata da cadeia desde a captação. Lembrada na conversa como a referência atual, a Resolução nº 193/2024, da Agência Nacional de Mineração (ANM), em vigor desde 2 de janeiro de 2025, consolida as especificações técnicas para o aproveitamento das águas minerais e potáveis de mesa, inclusive o envase. Seu art. 65 revogou os arts. 2º a 4º e parte dos itens do anexo da Portaria nº 374/2009; antes de usar a portaria como referência, convém conferir nesse artigo o que deixou de valer.
Referências desta seção: [1] Envase em Foco (YouTube) [3] Agência Nacional de Mineração (ANM), ANMlegis
Para ouvir no episódio
Ao final, Luciano resumiu seu conselho: “não subestimar o invisível”. A água, disse, não leva conservantes como outras bebidas e exige trabalho preventivo: “se você tem um produto que você não deu a devida atenção durante o processo, ela vai te falar lá na frente”.
| Trecho | Minuto | O que se aprende |
|---|---|---|
| Secagem da resina | 17:12 | Temperatura, umidade e o defeito no fundo da garrafa com gás. |
| Ar comprimido em dia úmido | 36:16 | Secador, drenos, óleo e a bateria de quatro filtros. |
| Deslizante e homologação da tampa | 44:56 | Os três deslizantes e os documentos a pedir ao fornecedor. |
| O caso da salsicha | 59:12 | Relato do apresentador sobre o baú que levou salsicha antes da água. |
| Elo mais fraco e normas | 1:06:40 | Negligência, investimento e as normas citadas. |
| O conselho final | 1:14:30 e 1:15:04 | Não subestimar o invisível e o trabalho preventivo no envase. |
Referências desta seção: [1] Envase em Foco (YouTube)
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Assista à conversa relacionada a esta leitura. A análise técnica e suas referências estão neste artigo.
PARA LEVAR À ROTINA
O que o consumidor não vê na garrafa também faz parte do controle de qualidade: comece pelo dossiê da pré-forma, da tampa e do shrink, pelos drenos do ar comprimido e pelas condições do veículo e do depósito.
Fontes e referências
As datas individuais de consulta estão registradas abaixo. Atualizações pontuais não renovam a checagem de todas as referências.
- A GARRAFA POR DENTRO: O PET Antes, Durante e Depois do Envase | EP. 04 — Luciano Rizzetto ↗
Envase em Foco (YouTube) · primária · consultado em 19/10/2026
Falas do convidado Luciano Rizzetto e caso relatado pelo apresentador, com minutagem conferida na transcrição, e descrição e capítulos publicados no YouTube: apresentação do convidado, patrocínio da Aguazul, data de publicação (02/09/2026), duração (1:20:20) e minutos da tabela. - Resolução da Diretoria Colegiada RDC nº 173, de 13 de setembro de 2006 ↗
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), AnvisaLegis · oficial · consultado em 19/10/2026
Situação Vigente no AnvisaLegis. Anexo I: item 2.16 (insumos incluem embalagens); itens 4.4.1, 4.4.2 e 4.5.3 (critérios documentados de avaliação e seleção de fornecedores, cadastro, especificações e inspeção no recebimento); item 4.8.4 (locais de armazenamento limpos, secos, ventilados, com temperatura adequada e protegidos da luz solar direta); item 4.9.2 (veículo limpo, sem odores indesejáveis, com cobertura e proteção lateral íntegras e sem cargas que comprometam a qualidade da água). - Resolução ANM nº 193, de 27 de dezembro de 2024 ↗
Agência Nacional de Mineração (ANM), ANMlegis · oficial · consultado em 19/10/2026
Ementa e art. 1º: consolidação das especificações técnicas para o aproveitamento das águas minerais e potáveis de mesa. Capítulo V: aproveitamento na forma de envase. Art. 65, IV: revogação dos arts. 2º, 3º e 4º e de itens do Anexo (Norma Técnica nº 1/2009) da Portaria nº 374/2009. Art. 66: vigência a partir de 2 de janeiro de 2025. - Decreto nº 12.688, de 21 de outubro de 2025 ↗
Presidência da República, Planalto · oficial · consultado em 19/10/2026
Sistema de logística reversa de embalagens de plástico. Art. 33, § 3º: as metas de conteúdo reciclado não se aplicam às embalagens com regulamentação específica, inclusive de alimentos. Anexo II: índice geral de 22% de conteúdo reciclado em 2026. Art. 46: vigência na data de publicação. - Avoiding labelling confusion — Ashlee Breitner, NSF Nonfood Compounds Registration ↗
NSF / New Food, volume 16, issue 4, 2013 · primária · consultado em 21/10/2026
Limites técnicos da designação H1 para contato incidental; não equivale a autorização brasileira de contaminação. Página impressa 24, seção Impact of improper labelling on food safety.
Atualizações e correções
21/10/2026 — Retirada a afirmação irrestrita de que óleo de grau alimentício não seria prejudicial após falha de filtragem. Acrescentados os limites da designação H1, com referência técnica da NSF, sem transformar contato incidental em autorização de contaminação do produto. Preservadas a autoria das recomendações do episódio e a data original de publicação.
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