Um índice sem fronteira pode melhorar só no papel
O indicador “litros de água por litro envasado” muda de significado conforme o numerador inclui apenas a fonte mineral ou também água de abastecimento, lavagem, CIP, resfriamento, uso sanitário e serviços.
O denominador também muda: volume nominal dos rótulos, volume efetivamente envasado, produto aprovado ou produto expedido. Sem declarar essas escolhas, duas fábricas — ou dois meses da mesma fábrica — podem parecer comparáveis quando não são.
Antes do cálculo, escreva cinco dados: instalação coberta, período, fontes de entrada, saídas incluídas e unidade de produto. Preserve o total absoluto ao lado da intensidade. Uma queda do índice acompanhada por forte redução de produção pode esconder consumo básico elevado; uma alta pode refletir mudança para embalagem retornável, limpeza extraordinária ou partida de linha, e não necessariamente piora estrutural.
Referências desta seção: [2] Global Reporting Initiative — GRI [3] Alliance for Water Stewardship — AWS
A obrigação brasileira oferece pontos de medição, não um índice de comparação
Para água mineral e potável de mesa no Brasil, a Resolução ANM nº 193, de 27 de dezembro de 2024, em vigor desde 2 de janeiro de 2025, exige medidores de vazão em local acessível na adução de cada fonte, nas linhas de envase e no fontanário. As leituras acumuladas devem ser registradas ao menos semanalmente. Os registros do artigo 61 devem permanecer disponíveis no complexo industrial por, no mínimo, dois anos.
Esses medidores permitem confrontar captação e envase, mas não demonstram sozinhos todo o balanço hídrico da fábrica. Água de terceiros, reservatórios, lavagem, utilidades, uso sanitário, reuso e descarga podem exigir medição adicional. A norma não fixa uma intensidade setorial nem autoriza classificar toda diferença entre fonte e linha como perda.

Referências desta seção: [1] Agência Nacional de Mineração — ANM
Monte primeiro o balanço de volumes
Liste as entradas separadamente: cada fonte mineral ou potável de mesa, abastecimento público, captação auxiliar autorizada, água transportada e água reutilizada que cruza a fronteira adotada. Depois mapeie produto envasado, fontanário, lavagem de embalagens, higienização, resfriamento, serviços, descarga, evaporação e mudanças de nível nos reservatórios. Não some novamente a água recirculada dentro da mesma fronteira.
O AWS Standard 3.0 inclui o mapeamento de entradas, consumo, perdas, armazenamento, reuso, saídas e pontos de medição (requisito 1.3.2), além do monitoramento e da quantificação do balanço (1.3.3). O requisito 1.3.4 acrescenta a eficiência do uso da água, acompanhada ao menos anualmente e com análise de tendência. Nesta matéria, esses princípios orientam um mapa operacional; a AWS é uma referência voluntária, sem substituir a legislação brasileira. [7]
Referências desta seção: [3] Alliance for Water Stewardship — AWS
A versão 3.0 passou a valer em 22 de março de 2026. Há uma transição: auditorias iniciais e de recertificação deverão usar essa versão a partir de 22 de março de 2027; auditorias de supervisão de certificações na versão 2.0 seguem as condições descritas pela AWS. A referência à versão 2.0 abaixo documenta a consulta anterior. [8]
Retirada não é sinônimo de consumo
O GRI 303 define retirada como a água extraída de águas superficiais, subterrâneas, marinhas ou de terceiros durante o período. Consumo corresponde à parcela que deixa de estar disponível ao ecossistema ou à comunidade naquele período. Quando não há medição direta, o padrão admite calcular consumo como retirada total menos descarga total, com metodologia, estimativas, modelagem e premissas declaradas.
Por isso, chamar toda água captada de “consumida” superestima uma categoria e apaga a qualidade e o destino da descarga; chamar toda descarga de “devolução” também pode ser enganoso se a água não retorna à mesma bacia, no mesmo período ou em condição compatível. GRI 303 pede contexto local e informação sobre retirada, descarga e consumo, mas não estabelece meta para envasadoras.
Referências desta seção: [2] Global Reporting Initiative — GRI
Quatro indicadores, quatro perguntas
A tabela propõe nomes distintos para evitar que números diferentes recebam o mesmo rótulo. As fórmulas são editoriais, não exigências da ANM, do GRI ou da AWS. Use unidades coerentes e informe se os volumes são medidos, calculados ou estimados.
| Indicador | Numerador | Denominador | Pergunta respondida |
|---|---|---|---|
| Intensidade de retirada do sítio | Todas as retiradas que cruzam a fronteira | Litros de produto aprovado | Quanto entrou no sítio por litro aprovado? |
| Relação fonte–envase | Volume medido em cada fonte | Volume acumulado nas linhas ligadas à fonte | Qual diferença precisa ser reconciliada? |
| Intensidade de água de processo | Água auxiliar destinada ao processo, sem contar produto | Litros aprovados por apresentação ou família | Quanto suporte hídrico a operação exigiu? |
| Intensidade de consumo | Retirada menos descarga, com ajustes declarados | Litros aprovados | Quanto deixou de estar disponível no período segundo a metodologia adotada? |
Referências desta seção: [1] Agência Nacional de Mineração — ANM [2] Global Reporting Initiative — GRI [3] Alliance for Water Stewardship — AWS
Submedição localiza a causa que a média esconde
Um estudo de 2021 modelou demanda de energia e meios em uma planta industrial alemã de bebidas com água mineral e refrigerantes em vidro retornável. No sistema estudado, a lavadora de garrafas concentrou o consumo de água analisado, permitindo simular ajustes. O resultado é específico daquela configuração, do mix e das premissas do modelo; não é um percentual transferível para linhas PET, copos ou garrafões.
Outro estudo de caso, também de 2021, descreveu monitoramento conectado em uma fábrica de bebidas na Índia e detalhou usos como produção, lavagem, sanitização e higiene. Ele mostra a utilidade de medir por processo, mas não fornece benchmark para água mineral brasileira. Os dois trabalhos apoiam uma conclusão limitada: quanto mais agregado o medidor, menor a capacidade de localizar a origem da variação.
Referências desta seção: [4] Sustainability [5] Sustainability
Eficiência precisa ser lida no contexto da bacia
O GRI 303 recomenda explicar como e onde a água é retirada, consumida e descarregada, além do escopo, do período e dos métodos da avaliação. O AWS Standard amplia a análise para o sítio e sua bacia, considerando balanço, qualidade, governança e desafios compartilhados. Assim, dois metros cúbicos economizados não têm automaticamente o mesmo significado em locais e estações diferentes.
Uma rotina gerencial útil combina tendência mensal, totais anuais, limites autorizados, sazonalidade da produção e contexto hidrogeológico. Metas devem indicar ano-base, fronteira, mix de produtos e tratamento de expansões. Se a fábrica altera medidores ou metodologia, preserve a série antiga e explique a ponte para a nova.
Referências desta seção: [2] Global Reporting Initiative — GRI [3] Alliance for Water Stewardship — AWS
O que as fontes permitem afirmar — e o que não permitem
A consulta de 20/10/2026 abrangeu a Resolução ANM nº 193/2024, o GRI 303, o AWS Standard 2.0 e dois estudos originais. Em 27/10/2026, esta matéria foi atualizada com a versão 3.0 da AWS e sua transição de certificação. Nenhuma dessas fontes estabelece um valor universal de litros de água por litro de produto para a indústria brasileira. Também não foi feita auditoria de medidores, outorgas ou balanços de uma fábrica específica.
O Engarrafador Moderno foi consultado como referência editorial. Em matéria publicada sobre sustentabilidade na indústria de água mineral, executivos relataram iniciativas de reuso, energia e proteção de fontes. Esses relatos situam a pauta, mas não comprovam desempenho nem substituem dados verificados. A publicação de um indicador deve trazer escopo, método, período, reconciliação e limites da evidência.
Referências desta seção: [1] Agência Nacional de Mineração — ANM [2] Global Reporting Initiative — GRI [3] Alliance for Water Stewardship — AWS [4] Sustainability [5] Sustainability [6] Engarrafador Moderno
PARA LEVAR À ROTINA
Antes de comparar litros por litro, declare o que entrou, saiu, ficou armazenado e foi produzido. A intensidade só se torna útil quando medidores, fronteiras, período e método permitem reconciliar o número.
Fontes e referências
As datas individuais de consulta estão registradas abaixo. Atualizações pontuais não renovam a checagem de todas as referências.
- Resolução ANM nº 193, de 27 de dezembro de 2024 ↗
Agência Nacional de Mineração — ANM · oficial · consultado em 20/10/2026
Texto integral consultado em 20/10/2026. Art. 8º e art. 61, VI: medidores em cada fonte, linhas e fontanário, leituras acumuladas ao menos semanais e guarda mínima de dois anos. Vigência em 02/01/2025. Jurisdição Brasil; água mineral e potável de mesa. - GRI 303: Water and Effluents 2018 ↗
Global Reporting Initiative — GRI · primária · consultado em 20/10/2026
Padrão integral consultado em 20/10/2026. Define retirada, descarga e consumo; requer contexto e metodologia; admite consumo calculado como retirada menos descarga quando não medido diretamente. Referência voluntária de relato, sem meta setorial. - AWS International Water Stewardship Standard — Version 2.0 ↗
Alliance for Water Stewardship — AWS · primária · consultado em 20/10/2026
Padrão integral consultado em 20/10/2026. Critérios 1.3.2 e 1.3.3 e glossário: mapeamento e quantificação de entradas, perdas, armazenamento e saídas no sítio, com contexto de bacia. Referência voluntária internacional. - Simulation of Energy and Media Demand of Beverage Bottling Plants by Automatic Model Generation ↗
Sustainability · pesquisa · consultado em 20/10/2026
Estudo original de 2021 em uma planta alemã de vidro retornável para água mineral e refrigerantes. Apoia medição por equipamento e simulação; resultados são específicos da instalação e não formam benchmark universal. - An Internet of Things Approach for Water Efficiency: A Case Study of the Beverage Factory ↗
Sustainability · pesquisa · consultado em 20/10/2026
Estudo de caso original de 2021 em fábrica de bebidas na Índia. Mostra decomposição de usos e monitoramento conectado; não representa uma envasadora brasileira nem estabelece meta para água mineral. - Sustentabilidade na indústria de água mineral — Água Mineral #4 ↗
Engarrafador Moderno · primária · consultado em 20/10/2026
Matéria editorial consultada em 20/10/2026, com entrevistas empresariais sobre reuso, energia e proteção de fontes. Usada para localizar a agenda setorial; relatos não foram tratados como auditoria ou medição independente. - AWS International Water Stewardship Standard — Version 3.0 ↗
Alliance for Water Stewardship · primária · consultado em 27/10/2026
Versão vigente desde 22/03/2026; requisitos 1.3.2–1.3.4, sobre balanço, medição e eficiência. - AWS — mudanças da versão 2.0 para a 3.0 ↗
Alliance for Water Stewardship · primária · consultado em 27/10/2026
Seção Transition Period, página 4: condições de transição de certificações e auditorias.
Histórico de atualizações
27/10/2026: acrescentadas a versão 3.0 do AWS Standard e as condições de transição de certificação. A referência anterior à versão 2.0 foi preservada como histórico. Essa atualização não altera as obrigações brasileiras citadas.
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